A franquia Knives Out, de Rian Johnson, reinventa o tradicional “who dunnit?”, conduzindo o público por mistérios que se desdobram em situações improváveis. Com um detetive que subverte expectativas — vivido brilhantemente por Daniel Craig — e enigmas que levantam reflexões sobre pertencimento e poder, a série se consolida como um sucesso moderado, mas marcante. Agora, Johnson retorna para sua terceira aventura, ‘Wake Up Dead Men’, buscando revitalizar o fôlego do universo criado em 2019.
Quando um monsenhor reacionário é encontrado morto às vésperas da Páscoa, os olhares recaem sobre o jovem padre Jud, um religioso marcado por um passado violento. Cercado por fiéis que o desprezam e atormentado por dúvidas sobre seu lugar na Igreja, Jud une forças com o detetive Benoit Blanc para desvendar o crime — e, quem sabe, encontrar algum milagre ao longo do caminho.
Se ‘Glass Onion’ tentou abraçar a pandemia do Covid-19 por meio de reviravoltas exageradas e acabou sendo uma sequência aquém do original, ‘Wake Up Dead Men’ revisita a fórmula do primeiro filme. O protagonista aqui mistura ingenuidade e carisma, e o mistério central provoca reflexões sobre o poder da fé e sobre como almas corroídas distorcem os ensinamentos de Cristo para alimentar egos inflados. Johnson cria piadas visuais inteligentes, e sua direção expande a vida desta pequena cidade com fluidez e personalidade.
O mistério oferece um interessante contraponto entre fortuna e devoção. Como nos demais filmes da franquia, não há receio em explorar um discurso crítico ao conservadorismo norte-americano, revelando hipocrisias com precisão. O humor distorcido da obra sustenta um divertimento quase absurdista, seja nas interações entre os personagens, seja na maneira como eles se relacionam com o próprio mundo.
Depois de Ana de Armas e Janelle Monáe, é a vez de Josh O’Connor se unir ao hall de protagonistas magnéticos da série. Seu Padre Jud é um homem de fé testado em sua ligação com Deus e confrontado por um passado violento. O’Connor — conhecido por ‘The Crown’ e ‘Challengers’ — é um dos novos destaques da franquia, tanto em cenas mais íntimas quanto em seus conflitos com a comunidade religiosa. Daniel Craig retorna pela terceira vez como Benoit Blanc, e fica evidente o quanto o ator se diverte com o personagem: seus trejeitos, expressões e referências sutis trazem nova camada ao detetive. O filme ainda sugere uma relação entre Blanc e o divino, estabelecendo um interessante paralelo com o detetive clássico por excelência: Sherlock Holmes.
Os suspeitos — ou melhor, o elenco coadjuvante — mantém a tradição da franquia, reunindo talentos que exploram arquétipos e caracterizações com vigor. Kerry Washington e Daryl McCormack se destacam como uma advogada que vive à sombra do pai e um político fracassado em busca de sua chance de brilhar. Josh Brolin interpreta o Monsenhor Jefferson Wicks, um homem que usa o medo e discursos agressivos para impor sua visão de fé. Mila Kunis é Geraldine Scott, uma policial que entra em conflito com o método investigativo de Blanc.
Entre os coadjuvantes, Glenn Close surge como Martha… e o que esperar de uma das maiores atrizes no mercado: sua performance fanática transita entre drama e comédia com maestria — afinal, quem não se intimidaria ao ver Glenn Close surgir do nada, pronta para servir a Deus? Portais apontam sua performance como uma das mais impressionantes do filme e uma provável indicada na categoria coadjuvante
‘Wake Up Dead Men’ resgata o espírito do primeiro ‘Knives Out’ ao privilegiar a construção de personagens, a crítica social e a textura moral do mistério. Rian Johnson encontra aqui o equilíbrio entre humor e intensidade dramática, dando à narrativa um frescor que a sequência anterior havia perdido. Não é apenas um quebra-cabeça sobre quem matou, mas sobre quem acredita — e até onde a fé, a ambição e o passado podem moldar aquilo que chamamos de verdade.

