Desde que interpretou o jovem Elio no romance queer Me Chame Pelo Seu Nome, a vida de Timothée Chalamet nunca mais foi a mesma. De Laurie de ‘Little Women‘ a Paul Atreides de ‘Duna‘, passando por um jovem Bob Dylan, o ator se consolidou como favorito do público, da crítica e das principais premiações. Na temporada de 2025, quando Adrien Brody conquistou o Oscar por O Brutalista, Chalamet também figurava entre os favoritos — algo que, ao que tudo indica, parece tê-lo marcado profundamente. Em 2026, ele retorna ao centro das apostas como principal nome ao prêmio com seu novo filme, Marty Supreme.

Ambientado em 1952, o longa acompanha Marty Mauser, um jovem arrogante que sonha em se tornar mundialmente reconhecido por seu talento no tênis de mesa e derrotar o campeão japonês Koto Endo. Convencido de sua própria genialidade, Marty atravessa o inferno e retorna inúmeras vezes em busca desse objetivo, sem medir consequências ou se importar com quem pode ferir no caminho.

O filme surpreende ao se afastar do esperado. Embora o início sugira uma narrativa clássica sobre um artista obcecado por sua vocação, a maior parte da trama se transforma em uma aventura caótica, acompanhando um protagonista narcisista que arca com as consequências de seus atos de forma comicamente ácida. Nem sempre Marty é retratado sob uma luz lisonjeira — e é justamente aí que reside parte da força do filme.

Enquanto o roteiro insere o tênis de mesa em situações inusitadas, a direção evita tratar o esporte com o mesmo fetiche estilizado dedicado a outras obsessões cinematográficas, como o balé ou a bateria. Repleta de personagens moralmente ambíguos e sem figuras deliberadamente boas, a história funciona como um estudo sobre escolhas e suas consequências. Não importa o quão talentoso alguém seja — seja no tênis de mesa ou na atuação — humildade e cooperação permanecem essenciais. O filme também aborda o poder, sua capacidade de corromper e a obsessão de quem o almeja.

A atmosfera criada em 16mm na produção de Josh Safdie é intensamente tumultuada. Os figurinos capturam a sobriedade da época em um mundo pós-guerra, enquanto os luxos que Marty tanto deseja evocam uma elegância contrastante e narrativamente eficaz. A trilha sonora, composta por músicas que não pertencem ao período retratado, imprime dinamismo às cenas e, com escolhas líricas precisas, estabelece conexões diretas com os personagens.

Timothée Chalamet lidera o elenco como Marty Mauser, um protagonista histérico, falho e distante do arquétipo mais admirável — uma ruptura deliberada com a imagem frequentemente associada ao ator. Gwyneth Paltrow retorna às telas como uma presença elegante e segura, garantindo boas interações coadjuvantes e funcionando como contraponto a Mauser. Odessa A’zion se destaca como um dos pilares dramáticos da narrativa, enquanto o elenco de apoio conta ainda com Kevin O’Leary, Götz Röhring, Koto Kawaguchi e Fran Drescher.

Marty Supreme é menos um filme sobre esportes e mais um retrato ácido da obsessão, do ego e das ilusões de grandeza. Ao desafiar expectativas narrativas e entregar um protagonista desconfortável, o longa reafirma a disposição de Chalamet em correr riscos artísticos e se afastar de papéis idealizados. Caótico, provocador e moralmente instável, o filme encontra força justamente em sua recusa ao conforto — e talvez seja essa ousadia que o coloque, novamente, no centro da corrida pelo Oscar.