Lesley Manville é um dos muitos talentos do cinema britânico que, por vezes, é ofuscado por nomes já consagrados, como as damas do teatro inglês ou pelos talentos modernos que despontaram no início dos anos 2000. Intérprete da Condessa de Snowdon nas duas últimas temporadas de The Crown, Manville tem se destacado ao dar vida a personagens marcantes: mulheres bem-sucedidas, firmes e resilientes, fadas guerreiras enfrentando vilãs sombrias e, mais recentemente — para o deleite de muitos — uma faxineira com notável força de vontade e bússola moral impecável em A Sra. Harris Vai a Paris.

Ada Harris é uma viúva na Londres do pós-guerra que ganha a vida honestamente, limpando apartamentos e mantendo uma alegria singular. Um dia, ela se deslumbra com um vestido Dior e passa a sonhar em adquirir um. Quando a sorte finalmente sorri para ela, Ada embarca para Paris em busca de seu sonho, tocando profundamente a vida de muitos pelo caminho.

A força do filme reside no equilíbrio entre o conto de fadas e a crítica social. Em uma atuação luminosa e comedida, Manville encarna Ada com uma mistura de doçura, obstinação e graça que torna sua jornada verossímil e comovente. É impossível não se emocionar com sua perseverança diante de um mundo que insiste em lembrá-la de seu “lugar”. Mas Ada, com sua gentileza inabalável, subverte esse status com firmeza e empatia, fazendo tremer — ainda que por instantes — os muros elitistas da alta-costura.

Visualmente, o filme é um deleite. A reconstituição de época é minuciosa, e os figurinos da Dior surgem quase como personagens próprios: exuberantes, detalhados, capazes de seduzir tanto os olhos da protagonista quanto os do espectador. A figura miúda da Sra. Harris parece saída de um folhetim açucarado. Paris, com suas ruas douradas e vitrines reluzentes, atravessada por uma greve de lixeiros, transforma-se em um cenário de beleza e contradições. O diretor Anthony Fabian não disfarça as tensões de classe que permeiam o universo da moda, especialmente quando Ada é tratada com desdém por figuras como Claudine Colbert, a rígida administradora da Dior, e pelos funcionários esnobes — e exaustos — da casa.

Contudo, o filme não se deixa contaminar pela amargura. Pelo contrário, um otimismo sutil permeia cada cena, reforçado pela trilha sonora suave e pelos coadjuvantes carismáticos, como Jason Isaacs, Lambert Wilson, Lucas Bravo e a estranhamente cômica Isabelle Huppert. Todos, à sua maneira, são tocados pela presença transformadora da Sra. Harris — não porque ela imponha mudanças, mas porque sua bondade desperta o melhor (ou o pior) de cada um.

A Sra. Harris Vai a Paris é um lembrete de que os sonhos — mesmo os aparentemente triviais, como comprar um vestido — carregam em si uma poderosa afirmação de identidade, pertencimento e autoestima. Ao final, o filme nos envolve como o vestido Dior de Ada Harris: com acabamento refinado, ternura nos detalhes e uma mensagem que, embora simples, costura com elegância os desejos mais profundos de quem assiste. Um conto encantador sobre gentileza, que prova que nunca é tarde para reinventar a própria vida — mesmo que tudo comece com um vestido.

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