Apesar de seu retorno às telonas ter acontecido com ‘Os Fantasmas Ainda Se Divertem’ foi outro projeto que tirou Tim Burton de seu hiato criativo, após o fracasso e a crise artística que se seguiram ao live-action de ‘Dumbo‘. Esse projeto foi sua estreia no meio televisivo, em que o californiano apresentou — à sua maneira e com sua estética icônica — uma das famílias mais amadas da ficção. Com ‘Wednesday’ , o mundo conheceu uma nova versão da Família Addams, que misturava o cinismo habitual com os estereótipos típicos das séries adolescentes.
Na trama, depois de ser expulsa de seu oitavo colégio em menos de um ano, Wednesday Addams é matriculada na Academia Nevermore, uma escola especial para alunos com dons sobrenaturais, que não se encaixam nas convenções normais. Com uma colega de quarto lobisomem, a sempre inseparável “Mãozinha” e o despertar de seus poderes psíquicos, a primogênita de Morticia e Gomez se envolve em mistérios que transitam entre o caos e o assassinato.
A série chegou em um momento em que a Família Addams vivia um limbo criativo, sustentada apenas pelas adaptações animadas da Universal e pela nostalgia dos filmes dos anos 1990. Embora nunca tenham desaparecido por completo, foi ‘Wednesday’ que reaproximou a família de uma nova geração, muito em função de estratégias de marketing inteligentes e da presença digital marcante, impulsionada, por exemplo, pela canção ‘Bloody Mary’, de Lady Gaga.
Apesar de cinicamente ser apresentada como uma versão juvenil da Família Addams nos moldes de Riverdale, a série surpreende por expandir o que se espera desse universo em um ambiente adolescente. Wednesday rejeita romances e dramas convencionais e, quando inevitavelmente é envolvida neles, retorna ao seu cinismo característico. Na segunda temporada, os dramas continuam presentes, mas o olhar “Addams” sobre o mundo ganha mais força — sobretudo com toda a família se tornando parte do elenco regular. O projeto aposta em mistérios instigantes e na subversão de expectativas, o que pode agradar tanto aos novatos quanto aos fãs mais antigos do gênero.
A direção de Burton, ainda que distante de seu auge, é um dos pontos altos da série. Seu estilo em um ambiente moderno surpreende, aproximando a representação da família das tirinhas clássicas e do sitcom de 1960, mais do que das versões cinematográficas com Raul Juliá e Anjelica Huston. É, de certa forma, um retorno inteligente à fórmula original. O diretor também recorre a muitos efeitos práticos e maquiagens, resgatando colaboradores de longa data, como Danny Elfman (trilha sonora) e Colleen Atwood (figurinos), que ajudam a dar vida a esse universo sombrio.
No elenco, Jenna Ortega brilha como a protagonista, em uma atuação estoica e ironicamente monótona, equilibrando humor e frieza, além de demonstrar forte envolvimento nos bastidores para definir o futuro da personagem. Luiz Guzmán e Catherine Zeta-Jones interpretam Gomez e Morticia com irreverência e precisão, criando versões próprias e carismáticas. A série também conta com talentos como Gwendoline Christie, Steve Buscemi, Hunter Doohan, Fred Armisen, Emma Myers, Joy Sunday e- inclusive- Lady Gaga. Como um presente aos fãs, Christina Ricci e Christopher Lloyd retornam ao universo dos Addams, depois de terem marcado gerações ao interpretar, respectivamente, Wednesday e Tio Fester nos filmes da década de 1990.
Em suma, ‘Wednesday’ é mais do que uma adaptação adolescente: trata-se de um projeto que revitaliza a Família Addams para um novo público, sem perder sua essência macabra, satírica e atemporal. A segunda temporada chega ao fim aprimorando o que já tinha sido estabelecido e aumentando expectativas. Embora não reinvente totalmente o universo de Burton ou da própria família, a série prova que os Addams continuam relevantes — seja no riso mórbido, no olhar crítico à sociedade ou na estranha beleza de abraçar o diferente.

