Madonna tem Jean Paul Gaultier; já Gaga tem Alexander McQueen.

Desde sua fundação, a marca Alexander McQueen nunca foi apenas sobre roupas: tratava-se de uma visão artística total, uma forma de expressão intensa e desafiadora. Poucas casas de moda na história ousaram seguir o caminho traçado por Lee Alexander McQueen. Fundada em 1992 pelo estilista britânico, a grife surgiu como um sopro de irreverência diante das convenções da alta-costura, subvertendo normas com desfiles performáticos e coleções impregnadas de narrativa, tragédia e provocação.

Formado pela Central Saint Martins — com os estudos financiados por sua tia — McQueen levou à marca não apenas um domínio técnico impecável, mas também uma sensibilidade artística profundamente influenciada por temas como morte, sexualidade, poder e o passado histórico britânico. A estética da casa nunca se limitou ao apelo visual: era voltada à comoção. Em suas passarelas, o corpo feminino era exaltado e, ao mesmo tempo, confrontado — tal como Gaultier fazia com suas musas.

Os desfiles de Alexander McQueen tornaram-se rapidamente eventos aguardados, não apenas no calendário da moda, mas também no campo da performance artística. Um dos momentos mais emblemáticos ocorreu na temporada primavera-verão de 1999, quando a modelo Shalom Harlow foi girada sobre uma plataforma enquanto braços robóticos pintavam seu vestido branco com jatos de tinta preta e amarela.

McQueen criava narrativas. Suas coleções eram concebidas como peças de teatro, com cenários elaborados, trilhas sonoras dramáticas e roteiros implícitos que, ao buscar o confronto, nem sempre agradavam. Em “VOSS” (2001), o público se via refletido em um cubo espelhado antes que este se abrisse, revelando modelos enclausuradas, como em um manicômio. Já em “Highland Rape” (1995), McQueen causou polêmica ao usar o estupro histórico das terras escocesas pelas forças britânicas como metáfora, vestindo as modelos com trajes rasgados e manchados de sangue fictício. Essa confrontação emocional era central para a identidade da marca: não se tratava apenas de vestir corpos, mas de contar histórias — muitas vezes dolorosas — sobre o mundo e sobre o próprio criador.

O trágico suicídio de Lee Alexander McQueen, em 2010, aos 40 anos, deixou uma lacuna profunda no mundo da moda. Sob a direção criativa de Sarah Burton — que já trabalhava com McQueen desde os anos 1990 — a grife passou a equilibrar o legado sombrio de seu fundador com uma nova suavidade poética. Foi Burton, inclusive, quem desenhou o vestido de noiva de Kate Middleton, a atual Princesa de Gales, para o casamento real de 2011 — peça que marcou uma transição estética, agora também associada ao romantismo e à sofisticação cerimonial.

A gestão de Burton honrou os códigos fundamentais da casa — silhuetas afiadas, dramatismo nos volumes, riqueza de referências históricas — ao mesmo tempo em que lapidava suas arestas mais brutais. Sob sua liderança, a marca alcançou estabilidade comercial e renovada relevância internacional, marcando presença constante em premiações, tapetes vermelhos e campanhas publicitárias globais.

Desde o início, Alexander McQueen cultivou musas que personificavam a fusão entre força selvagem e vulnerabilidade emocional presente em suas criações. Isabella Blow — a editora de moda que descobriu McQueen — foi, talvez, sua musa mais importante: uma figura excêntrica, que reconheceu no estilista uma alma gêmea artística. Outros nomes como Kate Moss, Björk e Lady Gaga também vestiram a marca como manifesto. Gaga, em especial, foi uma espécie de embaixadora não oficial da grife no final dos anos 2000, popularizando peças como os controversos sapatos Armadillo, que deformavam completamente a silhueta do pé humano. O vestido preto que usou ao receber o Oscar por Shallow, uma homenagem à Era de Ouro de Hollywood, também foi assinado pela marca.

Assim como Jean Paul Gaultier, a Alexander McQueen também teve seus momentos sob os holofotes do cinema, refletindo suas diferentes fases e estéticas. Em Oito Mulheres e um Segredo, criações da grife adornam o MET Gala invadido por Sandra Bullock e Cate Blanchett, conferindo uma personalidade incomum ao grupo de ladras de joias. A vertente mais excêntrica da marca brilhou especialmente na franquia Jogos Vorazes, em que os moradores da opulenta Capital — especialmente a personagem Effie Trinket, vivida por Elizabeth Banks — ostentam diversas criações assinadas por McQueen e Sarah Burton.

Como casa de moda, a Alexander McQueen sobreviveu à morte de seu criador, mas é impossível dissociá-la da figura de Lee. Sua visão permanece impressa com tanta força que ainda reverbera nas coleções contemporâneas. A marca continua a ser referência em excelência técnica, criatividade sem limites e um raro senso de poesia surrealista.

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