Daniel Rezende não é alheio a filmes que despertam fortes emoções. Diretor de obras como ‘Bingo: O Rei das Manhãs’ e ‘Turma da Mônica: Laços’, ele realizou o aparentemente impossível ao adaptar para o cinema o livro de Valter Hugo Mãe. Exibido pela primeira vez durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e disponível na Netflix, ‘O Filho de Mil Homens’ reafirma a força do cinema nacional quando este se permite sair da zona de conforto.

Em uma vila à beira-mar, diferentes “rejeitados” encontram uns aos outros. O calado pescador Crisóstomo adota o menino Camilo e, com isso, reconecta-se com o afeto após anos de isolamento; o jovem Antonino, homossexual, carrega no peito a fome por carinho e pertencimento; Isaura foge das próprias feridas enquanto ganha a alcunha cruel de “deflorada”. Todas essas histórias se entrelaçam, afastam-se e novamente se tocam nessa vila esquecida pelo tempo.

Narrado pela imponente voz de Zezé Motta, o filme assume o formato de uma fábula silenciosa sobre a condição humana. É uma ode à solidão e um abraço aos marginalizados, expandindo o arquétipo da “found family” e dando forma ao amor e à dor em suas múltiplas manifestações. Aceitação e união são temas centrais, assim como a relação do ser humano com o desconhecido e com aquilo que teme em si mesmo.

A obra equilibra passado e presente, tradição e renovação. Não teme mostrar párias sociais como símbolos vivos de resistência, mas tampouco se prende a discursos panfletários: há críticas ao capacitismo, à homofobia e ao hedonismo, porém nada é entregue de maneira rígida ou moralizante. Afinal, esta não é uma história sobre levantar bandeiras, mas sobre observar como os laços humanos se constroem e se transformam — e como o tempo, por vezes, reconfigura ideias e sentimentos. É um filme sobre conexão: com o outro, com o mundo, e consigo mesmo.

Em muitos momentos, especialmente tendo um pescador solitário como protagonista, o filme pode evocar ‘O Velho e o Mar’, de Ernest Hemingway. Mas, como conjunto, o universo criado lembra a atmosfera mítica de ‘Cem Anos de Solidão‘, de Gabriel García Márquez. Há visuais e situações despidas de explicação racional, elementos mágicos que enriquecem ainda mais esse microcosmo.

A direção delicada de Rezende, aliada à fotografia poética de Azul Serra, constrói uma vila que parece existir fora do tempo e do espaço, com cavernas, estradas e paisagens que fogem ao comum no cinema nacional. Não são caminhos simples como aqueles que conduzem a Bacurau, mas trilhas que nos levam exatamente ao clima necessário para essa narrativa. O elenco, composto por nomes como Rebeca Jamir, Johnny Massaro, Juliana Caldas e Miguel Martínez, entrega performances sólidas, mas é Rodrigo Santoro quem mais se destaca. Ele imprime sensibilidade extrema a um personagem que parece estar descobrindo o mundo — e a si mesmo — pela primeira vez.

‘O Filho de Mil Homens’ é um dos filmes nacionais mais sensíveis dos últimos anos, um retrato lírico sobre a busca por pertencimento em um mundo que insiste em dividir e excluir. Ao adaptar a poesia de Valter Hugo Mãe para a tela, Daniel Rezende oferece uma obra que transborda humanidade, melancolia e esperança. Trata-se de um filme que não apenas emociona, mas que permanece ecoando dentro de quem o assiste — como um sussurro persistente sobre amor, solidão e a coragem de seguir adiante.