“Dança, música, champanhe:a melhor maneira de esquecer — até que se tenha algo que valha a pena lembrar.” – Baronesa von Semering
Os últimos papéis de grandes artistas costumam carregar uma sensação agridoce. Afinal, é a última vez que veremos certos rostos em cena — e, muitas vezes, essas despedidas vêm carregadas de emoção. Vai desde Diane Rigg sendo lentamente consumida pelas chamas em ‘A Última Noite em Soho’ até a promessa de um amanhã melhor deixada por Robin Williams em ‘Uma Noite no Museu 3’. Há dez anos, após lançar o clipe de Lazarus em tom inequívoco de despedida, David Bowie faleceu após uma batalha contra o câncer no fígado. Curiosamente, um de seus primeiros papéis principais no cinema se cruza com a despedida definitiva de Marlene Dietrich das telas, em ‘Apenas um Gigolô’ , um longa e amplamente criticado na época de sua estreia.
Dirigido por David Hemmings, o filme acompanha o destino de Paul Ambrosius von Przygodski, um oficial que retorna da Primeira Guerra Mundial a uma Berlim derrotada, empobrecida e moralmente fragmentada. Sem outras competências além daquelas aprendidas no exército, e incapaz de encontrar algo além de empregos subalternos e mal remunerados, Paul acaba trabalhando para uma idosa baronesa, tornando-se gigolô de mulheres ricas e solitárias.

Tentando seguir os passos de produções que retrataram com interesse a República de Weimar — período que antecedeu a ascensão de Adolf Hitler —, ‘Just a Gigolo’ apresenta uma Berlim em ruínas, tanto simbólicas quanto literais, onde um leitão vivo pode ser disputado como se fosse uma barra de ouro. Visualmente, o filme aposta em uma estética elegante, caótica e melancólica, com figurinos refinados, cenários de aparência desgastada e uma fotografia que busca evocar a decadência quase mítica do período. No entanto, essa beleza frequentemente se revela vazia e mal aproveitada: a obra parece fascinada pela superfície da decadência, mas pouco disposta a encarar suas contradições políticas e sociais mais profundas. Questões como a divisão política e ideológica de Berlim são mencionadas, mas nunca exploradas em todo o seu potencial. O filme se configura mais como um ensaio visual da época do que como uma narrativa bem estruturada, isso sem comentar a pobreza de diversidade visual.
David Bowie, em seu primeiro grande papel no cinema, entrega uma atuação curiosamente contida. Há coerência entre sua imagem pública — andrógina e deslocada — e o personagem de Paul, um homem constantemente fora de lugar, alheio tanto ao tempo histórico quanto às convenções sociais. Ainda assim, o roteiro raramente lhe oferece material dramático suficiente para transformar essa estranheza em força narrativa. Bowie surge menos como um personagem plenamente desenvolvido e mais como um corpo simbólico atravessando cenários de decadência. Não à toa, o próprio artista criticou abertamente o filme anos depois, comparando sua experiencia a dúzias de filmes estrelados por Elvis Presley, conhecidos por sua qualidade inferior.

Na tentativa de compensar suas fragilidades dramáticas, Just a Gigolo aposta em um elenco de apoio impressionante, que inclui nomes como Marlene Dietrich, Kim Novak, Maria Schell e Curd Jürgens. Dietrich, com 77 anos na época, empresta dignidade e peso histórico às poucas cenas em que aparece, funcionando quase como um eco do cinema alemão clássico e do glamour trágico de um passado perdido, com sua personagem envolta em véus e com pesada maquiagem. Suas participações foram gravadas em seu apartamento em Paris e inseridas posteriormente no filme, fazendo com que a diva alemã jamais chegasse a conhecer Bowie. Alvo de críticas severas — que a tacharam de confusa e alcoolizada —, Dietrich nunca mais voltaria a atuar no cinema. Ainda assim, sabendo-se tratar de sua despedida definitiva das telas, suas últimas cenas guardam um potencial emocional inegável, com ela sozinha cantando a musica que dá nome ao filme.
O resultado é um filme que oscila entre o drama histórico, a fábula moral e o melodrama romântico, sem jamais se decidir plenamente por um desses caminhos. Just a Gigolo não é desprovido de interesse: há imagens que poderiam ser marcantes, uma atmosfera de tristeza elegante e um subtexto promissor sobre sobrevivência em tempos de ruína. Contudo, sua incapacidade de articular esses elementos em um discurso coeso o transforma em uma obra mais curiosa do que verdadeiramente impactante. O filme é lembrado menos por seus méritos cinematográficos e mais por marcar tanto a estreia de David Bowie no cinema quanto a despedida de Marlene Dietrich — ambos aquém de seus talentos. Como obra, permanece como exemplo de um cinema que sucumbe à própria indefinição: um retrato bonito, porém raso, de um mundo à beira do abismo.

