O ano de 2020, além do caos generalizado causado pelas consequências da pandemia de Covid-19, não foi particularmente favorável para a comunidade afro-americana. A morte de George Floyd mobilizou o mundo em manifestações do movimento ‘Black Lives Matter’ e, após anos lutando silenciosamente contra o câncer, o ator Chadwick Boseman faleceu. Sua partida, aos 43 anos, pegou o mundo de surpresa e entristeceu profundamente a comunidade cinematográfica. Seu último papel no cinema veio em ‘Ma Rainey’s Black Bottom’, ao lado de Viola Davis.

Conhecida como “a Mãe do Blues”, Ma Rainey é retratada como uma figura extremamente difícil de lidar, um desafio constante para seus empresários, que lutam para concluir a gravação de seu mais recente álbum em uma indústria musical que explora talentos afro-americanos. Paralelamente, conflitos começam a emergir entre a cantora e sua banda, em especial com o jovem e rebelde trompetista Levee.

Adaptação da peça homônima de August Wilson, dirigida por George C. Wolfe e produzida por Denzel Washington, o filme condensa um momento histórico e artístico de forma visceral. Ambientado na Chicago dos anos 1920, no auge do jazz e das primeiras gravações fonográficas, o longa não se limita a retratar o ambiente de um estúdio. Ele expõe as feridas da segregação racial, os dilemas de identidade e os embates entre tradição e modernidade de maneira afiada e perturbadora.

No centro da narrativa está Ma Rainey, interpretada com intensidade e imponência por Viola Davis, em uma das atuações mais reconhecidas da temporada de premiações. Negra, mulher e bissexual assumida em um contexto profundamente hostil, Rainey compreende que sua arte e sua voz têm valor inestimável, mas que, para o mercado controlado por homens brancos, tudo pode ser reduzido a lucro. Davis constrói a personagem com impressionante fisicalidade: suor, maquiagem borrada, gestos firmes e inflexíveis. Seu desempenho reafirma a importância de figuras como Ma Rainey não apenas no campo artístico, mas também político e cultural.

A centelha mais explosiva do filme, contudo, é Chadwick Boseman no papel de Levee: um trompetista jovem, ousado e inquieto, que sonha em romper tradições e impor sua própria música. Há uma carga trágica em assistir à sua entrega absoluta ao personagem. Levee encarna a juventude negra da época, ansiosa por ascender socialmente por meio do talento, mas continuamente barrada por estruturas racistas. Sua energia delirante, a fala acelerada, a ambição maior que a razão e a fragilidade exposta em seus monólogos constroem um retrato devastador de um homem esmagado pelas circunstâncias.

A direção de Wolfe mantém a atmosfera claustrofóbica do texto teatral. Grande parte da ação se passa em ambientes fechados , o que intensifica as tensões entre os personagens. Embora a adaptação preserve o caráter dramatúrgico da peça e corra o risco de soar excessivamente teatral, a força dos diálogos e o virtuosismo dos atores transformam a encenação em um campo de batalha psicológico e social.

Apesar de não ser um musical, ‘Ma Rainey’s Black Bottom’ utiliza o blues como motor narrativo. Cada canção é carregada de história, espiritualidade e resistência. Quando Ma insiste em gravar sua música do seu jeito, não está apenas defendendo uma estética, mas reivindicando autonomia em um meio que insiste em explorar artistas negros sem reconhecer sua humanidade. O embate entre Ma e os produtores brancos escancara como a indústria cultural lucrou com vozes afro-americanas, ao mesmo tempo em que lhes negava os direitos mais básicos.O filme também reflete sobre questões universais relacionadas à arte e ao poder. Levee acredita que pode negociar diretamente com empresários brancos, vendendo suas composições para alcançar fama e sucesso. Porém, sua ilusão desmorona diante da realidade cruel da exploração e da exclusão. 

‘Ma Rainey’s Black Bottom’ teve uma temporada de premiações marcante em 2021: recebeu múltiplas indicações importantes, incluindo Ator e Atriz (com Chadwick Boseman — indicado postumamente, um feito histórico — e Viola Davis), além de outras categorias técnicas e críticas, e venceu o Oscar de Melhor Figurino e Melhor Maquiagem e Penteado, com Mia Neal e Jamika Wilson tornando-se as primeiras profissionais negras a conquistar este último prêmio. Na categoria de ator, era previsto que a memória de Boseman e sua atuação marcante conquistassem o prêmio póstumo, tanto que a categoria foi colocada como o fechamento da premiação. No entanto, Anthony Hopkins ganhou por sua arrebatadora performance em “The Father’ mas não estava na audiência para receber o prêmio, fazendo que o Oscar de 2021 se encerrasse de maneira anticlimatica e às pressas, sendo colocada como uma das maiores gafes da  Academia.

 ‘Ma Rainey’s Black Bottom’ é um filme que exige ser ouvido tanto quanto visto: Viola Davis encarna uma lenda com imponência, Chadwick Boseman oferece uma última performance brilhante e dolorosa, e August Wilson, por meio de sua dramaturgia, reafirma o poder da palavra como arma contra o esquecimento. 

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