Com a chegada da temporada de premiações, repete-se um padrão já bastante conhecido nas categorias de atuação: predominam encarnações de figuras históricas — de personalidades amplamente reconhecidas, como a Edith Piaf de Marion Cotillard, a nomes menos familiares ao grande público, como a Eunice Paiva interpretada por Fernanda Torres — e protagonistas imersos em dramas intensos, frequentemente marcados pelo excesso emocional. Eventualmente, porém, esse modelo é quebrado pela inclusão de performances caricaturais, quase sempre relegadas às categorias coadjuvantes, personagens que raramente encontram espaço em eventos tradicionalmente conservadores.

Na temporada de premiações de 2026, um dos exemplos mais comentados desse desvio surge na figura da Tia Gladys, vivida por Amy Madigan. Antagonista central de ‘Hora do Mal‘, a personagem — uma bruxa camaleônica, envolta em disfarces e exageros — tornou-se o maior destaque do filme e apareceu entre os indicados a prêmios como o Globo de Ouro e o Critics Choice de maneira semelhante a Ruth Gordon por “O Bebê de Rosemary”: em um terror mais centrado, uma figura caricata chega até nós, dominando a audiência . O caso reacende uma questão recorrente: por que, vez ou outra, performances assumidamente caricaturais ou oriundas de gêneros distantes do drama “sério” conquistam o afeto das premiações?

Gladys, no entanto, está longe de ser um caso isolado. Ao longo da história recente do cinema, personagens que desafiam o naturalismo dominante ocasionalmente atravessam o filtro formal das grandes academias e ganham reconhecimento justamente por sua ousadia. Ainda que a vitória nem sempre venha, as indicações funcionam como prova da versatilidade de seus intérpretes. Glenn Close, por exemplo, consagrada como uma força absoluta do drama, redefiniu a percepção de sua carreira nos anos 1990 ao interpretar Cruella de Vil, papel que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz — prêmio que acabou ficando com Madonna por Evita.

Há também atores que fazem da estilização uma assinatura. Johnny Depp e Robert Downey Jr. costumam incorporar traços pessoais às suas performances e abraçar, sem pudor, os códigos de gênero de seus filmes. Jack Sparrow, o anti-herói errante da franquia Piratas do Caribe, rendeu a Depp uma indicação ao Oscar de Melhor Ator no primeiro filme da franquia — um feito raro para um personagem tão abertamente cômico e extravagante. Esses afastamentos pontuais do drama tradicional revelam fases específicas de Hollywood, mas também funcionam como um debate sobre os limites e a amplitude da arte de atuar.

Embora performances caricaturais sejam mais frequentemente indicadas do que premiadas, dois exemplos recentes se destacam por terem atravessado essa barreira: Olivia Colman e Michelle Yeoh . Em ‘A Favorita‘, Colman interpreta uma rainha deliberadamente excêntrica e infantilizada, mas capaz de sustentar, em momentos pontuais, um peso emocional genuíno, com o véu do drama suavizando a caricatura. Já Yeoh, em ‘Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo’, entrega uma atuação caótica e mutante que funciona como um tributo à própria carreira; o fator incomum nos primeiros atos, a conexão emocional do climax e a energia magnética da performance foram decisivos para seu reconhecimento máximo.

Esses exemplos ajudam a compreender por que, quando performances caricaturais conseguem romper o conservadorismo das premiações, elas se tornam tão memoráveis. Existe nelas um elemento de risco, de instabilidade calculada, que contrasta com a segurança quase protocolar das cinebiografias e dos dramas . São atuações que exigem domínio absoluto do tom e plena consciência do ridículo que as cerca — e é justamente essa proximidade com o abismo que as torna fascinantes.

Tia Gladys, por trás do ‘Elemento Camp’, é uma personagem interessante para se interpretar: sendo uma bruxa no senso comum, mas se disfarçando constantemente sob uma fachada chamativa, a performer precisa transitar do que se é esperado de uma rigida governanta a uma tia canastrona e excêntrica, tal qual foi com a Coadjuvante de “O Bebê de Rosemary”. Semelhante a Gladys, a Minnie Castavet de Ruth Gordon não era uma personagem normalmente associada ao gênero do terror, e essa liberdade fez com que a performer pudesse nos oferecer tanto uma vizinha enxerida quanto uma satânica.

Ruth Gordon ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante por ‘Bebê de Rosemary’ em 1969 contra forte concorrentes, se tornando uma das primeiras conquistas do Terror e do não convencional em premiações. A vitória de Amy Madigan no Critics Choice Awards e sua aclamação por especialistas pode simbolizar, talvez, algo semelhante… mesmo que uma vitória não seja certa, com o favoritismo de nomes como Teyanna Taylor e Ariana Grande na categoria.

No fim, personagens como a Tia Gladys, Cruella, a Rainha Anne e Evelyn Wang lembram que a arte da atuação não se limita à imitação fiel da realidade. Ela também se alimenta do exagero, da máscara, do artifício e do grotesco. Quando a caricatura encontra precisão e propósito, deixa de ser um corpo estranho na temporada de prêmios e passa a ser celebrada como aquilo que realmente é: uma demonstração  de talento.

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