Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another) é um ambicioso thriller que mescla ação, comédia e drama, dirigido e roteirizado por Paul Thomas Anderson, cineasta norte-americano conhecido por obras como Licorice Pizza e Sangue Negro. Aqui, Anderson retorna com uma adaptação livre do romance Vineland, de Thomas Pynchon, um projeto idealizado ao longo de mais de vinte anos. O filme combina sequências intensas e satíricas com um olhar contemporâneo sobre polarização política, idealismo e redenção pessoal, tornando-se uma obra ao mesmo tempo visceral e introspectiva dentro da filmografia do diretor.
A trama acompanha Bob Ferguson, um paranoico que vive isolado em uma cabana ao lado de sua filha, Willa. O que a jovem desconhece é que Bob — no passado conhecido como Ghetto Pat — e sua mãe, Perfidia, fizeram parte de um grupo revolucionário responsável por diversos ataques anos atrás. Quando um coronel ligado a esse passado ressurge, Bob e sua filha são forçados a revisitar essa vida de guerrilha — ainda que apenas uma última vez.
Com quase três horas de duração, o longa transita por diferentes gêneros sem perder o eixo central: a chama da revolução e suas contradições. Sem apontar governos específicos, o filme dialoga com a lógica dos totalitarismos e com o momento em que um povo exausto decide ir às ruas — uma sensação bastante familiar para muitos espectadores no Brasil e no mundo. Ainda assim, a obra não romantiza a militância cega: condena a alienação política e critica aqueles que colocam o movimento acima das pessoas em nome das quais dizem lutar. Nesse sentido, o filme pode ser lido como uma alegoria dos tempos modernos e de como o século XXI avança rapidamente rumo a uma distopia marcada pela desinformação e pelo analfabetismo midiático.
As cenas de ação e perseguição abraçam o absurdo proposto pelo enredo — que vai de freiras guerrilheiras a supremacistas brancos natalinos — e, mesmo quando operam em grandes escalas, conseguem ser incrivelmente claustrofóbicas. Anderson constrói tensão ao apresentar personagens moralmente ambíguos, cada um em um ponto diferente desse labirinto ideológico e emocional. O roteiro oferece reviravoltas constantes e se desenvolve de forma gradual. Embora a primeira hora possa parecer estagnada para alguns, o filme cresce progressivamente, culminando no momento certo, ainda que deixe parte do público com a sensação de “quero mais”.
Apesar do tom pesado e das reflexões sobre a grande História, o filme encontra espaço para leveza e humor. Algumas escolhas cômicas se estendem além do necessário, mas não comprometem o conjunto. No fim, trata-se de uma obra sobre escolhas e sobre os laços que construímos ao longo da vida — sejam eles de sangue ou não.
O elenco é liderado por Leonardo DiCaprio, em um papel que abraça a maturidade e revela um homem neurótico, porém profundamente empenhado em ser um bom pai. É uma performance que o coloca entre os favoritos da temporada de premiações — observação vinda, inclusive, de alguém que não costuma admirar o ator. Teyana Taylor, como Perfidia, é a força motriz do filme, mesmo com tempo de tela limitado. Sean Penn entrega um antagonista carismático e ameaçador, capaz também de momentos cômicos. Regina Hall surpreende em um papel distante da comédia, enquanto Benicio Del Toro se destaca como um personagem comicamente monótono.
Uma Batalha Após a Outra reafirma Paul Thomas Anderson como um cineasta interessado não apenas em narrativas grandiosas, mas nas fissuras humanas que elas escondem. O filme é excessivo, irregular e, por vezes, indulgente consigo mesmo — mas também profundamente provocador. Ao misturar ação, sátira e drama político, Anderson constrói uma obra que questiona a herança das revoluções, o peso das escolhas individuais e o custo emocional de lutar por ideias em um mundo cada vez mais confuso. Não é um filme fácil, nem completamente satisfatório, mas é inquietante, relevante e impossível de ignorar.

