“It: A Coisa” é uma das histórias mais infames de Stephen King: um grupo de crianças confronta uma criatura maligna que assume a forma de Pennywise, o palhaço que aterroriza a cidade de Derry. A trama foi primeiramente adaptada em formato de minissérie, marcada pela icônica performance de Tim Curry como o antagonista. Décadas depois, a história ganhou novo fôlego com a duologia dirigida por Andy Muschietti, que apresentou a visão distorcida — porém fiel ao espírito da obra — por meio da interpretação visceral de Bill Skarsgård. Agora, seis anos após nos despedirmos do Clube dos Otários, Muschietti retorna ao universo em ‘Welcome to Derry’, uma prequel que explora os ciclos de destruição da Coisa ao longo das décadas.
Muito antes de arrastar o pequeno George Denbrough bueiro abaixo, a Coisa inicia um violento ciclo de terror pela cidade de Derry, Maine. Um grupo de crianças, tentando desvendar um mistério alimentado por tensões raciais, se vê perseguido por seus piores medos e pela indiferença coletiva que sempre contaminou a cidade. Paralelamente, um grupo de nativos-americanos entra em confronto direto com o Exército dos Estados Unidos, que conduz operações nos arredores de Derry em busca de um segredo ancestral — uma peça importante na mitologia da criatura.
Enquanto os filmes se apoiaram fortemente na nostalgia dos anos 1980 nos mesmos moldes de Stranger Things, a série amplia o universo ao explorar a cronologia original do livro, explorando diferentes camadas da cidade e aprofundando a influência tóxica da Coisa sobre seus moradores. Um dos maiores trunfos da produção é justamente integrar elementos que ficaram de fora das adaptações cinematográficas, desde o funcionamento quase orgânico de Derry sob o domínio da Coisa até a maneira como questões reais e perigosas — especialmente raciais — se entrelaçam com o horror sobrenatural. As lutas pelos direitos civis e a resistência de cidades pequenas ao fim da segregação se tornam pilares narrativos, ainda que distorcidas pela força corruptora da criatura.
A presença de personagens de outras obras do “mestre do horror”, como Dick Halloran de ‘O Iluminado’, expande o universo literário de King sem romper com a linha cronológica estabelecida nos filmes de 2017 e 2019. Apesar de alguns efeitos visuais ficarem aquém do esperado, a atmosfera permanece densa e opressiva: Derry continua a funcionar como uma extensão viva da entidade que se alimenta de medo — e que enxerga um país dividido como um verdadeiro banquete. A brutalidade da série é marcante, especialmente nas mortes de crianças, que se revelam incrivelmente gráficas. Muitos personagens, inclusive os que não sobrevivem, apresentam conexões diretas ou indiretas com o futuro Clube dos Otários.
Com inclusões originais e personagens apenas mencionados no livro, a série destaca dilemas relacionados à passividade e à indiferença diante do mal — temas centrais na obra de King. Há também uma crítica, ainda que sutil, à moral distorcida das Forças Armadas norte-americanas em sua busca por domínio e hegemonia, que ecoa em paralelo ao surgimento da Coisa.
O maior mérito de ‘Welcome to Derry’ talvez esteja em mostrar os métodos da criatura durante outras épocas, revelando versões ainda mais brutais do que as vistas em ‘It: A Coisa’. A série trabalha bem com traumas pessoais e culturais, ainda que dependa de efeitos visuais nem sempre convincentes. Em vários momentos, o “vale da estranheza” é proposital, reforçando o caráter alienígena e incompreensível da Coisa. E, embora muito mistério ainda envolva sua origem, a produção oferece novos vislumbres sobre como a Coisa assumiu a persona de Pennywise — o palhaço que viria a traumatizar gerações.
O elenco contribui imensamente para o impacto emocional da série. As crianças, com suas expressões vulneráveis e diálogos rápidos, entregam atuações adoráveis e dilacerantes — até que encontram seu destino nas garras da criatura. Taylour Paige e Jovan Adepo formam o casal Hanlon, recém-chegado a Derry e determinado a mudar o que for possível antes de serem engolidos pela corrupção local. Chris Chalk dá vida a um jovem Dick Halloran, muitos anos antes de trabalhar no Overlook Hotel. Madeleine Stowe interpreta Ingrid, uma enfermeira com uma ligação inquietante com o palhaço que assombra a cidade. No centro de tudo, Bill Skarsgård retorna como Pennywise, ainda mais insano, cruel e alienígena, entregando uma atuação hipnótica e aterradora.
‘Welcome to Derry’ funciona como um complemento poderoso ao universo de It, expandindo sua mitologia sem desrespeitar o material original. A série enriquece a história ao explorar temas sociais, culturais e históricos com coragem, enquanto aprofunda o horror visceral que permeia Derry. Mesmo com falhas visuais pontuais, a produção se apoia em um elenco competente, em uma atmosfera sufocante e em uma narrativa que entende a essência do medo — aquilo que Stephen King sempre soube capturar tão bem.

